(It’s) Not About You

Comentários nos media (tradicionais) online

17 de Agosto de 2008 por Miguel Albano

Os comentários tornaram-se uma presença comum nos media online nacionais, sejam os media sociais, sejam os media tradicionais.

Mas enquanto nos media sociais, vulgo blogs, os autores aplicam políticas muito próprias de moderação dos comentários, sejam automatizadas ou individualizadas, facto é que os media tradicionais começam a verificar um problema crescente nos seus «espaços».

Um artigo (seja num blog, seja num órgão de comunicação social) tem objectivos muito próprios. Na sua essência, pretende estabelecer um ponto de ligação entre o seu autor e os seus leitores, veiculando uma determinada informação com um determinado tom.

Antigamente, não era muito mais que isto.

Mas hoje em dia, a possibilidade (técnica) de comentar um artigo levou-nos a um novo paradigma.

Quando eu comento num determinado artigo num determinado blog, estou a interagir com o seu autor. No máximo, estarei a interagir com outros comentadores, embora dentro do espaço de opinião do autor do blog.

Ao autor reconhece-se (embora se possa não concordar) a autoridade (quer técnica, quer moral) de aprovar ou não um determinado comentário, se ele acreditar que o mesmo não contribui valor para o artigo, para uma discussão em curso ou para o blog em questão.

É essa a nossa política aqui no (It’s) Not About You. Queremos interagir com os nossos leitores, mas queremos também que eles contribuam significativamente. Por vezes, não aprovamos comentários, se acharmos que não contribuem valor.

Mas os órgãos de comunicação social que apostam em força na web e que permitem actualmente comentar os seus artigos não terão (na minha humilde opinião) uma visão clara do pretendido com os comentários.

Estado da Nação

No Público, a possibilidade de comentar um artigo já não é nenhuma novidade. Os comentários podem ser anónimos ou assinados (embora nada garanta a identidade do comentador). Como diz a nota por baixo do formulário de comentário, os mesmos são publicados automaticamente sem edição prévia, devendo respeitar os Critérios de Publicação.

Estes critérios são deveras importantes, mas não definem de forma precisa algumas regras. Se o Público identificar algum comentário menos coerente com os respectivos critérios, embora tenha sido publicado, a sua remoção é assinalada? Se um segundo comentário responder ao primeiro e o primeiro for apagado, o segundo também o será apagado ou ficará órfão? («lógica de threading»).

Os comentários não são passíveis de serem ordenados, sendo necessário ler sempre do mais recente para o mais antigo ou saltar para a última das páginas. E como só é possível visualizar 5 comentários de cada vez, a navegação entre comentários também não é das melhores.

No Expresso, o «threading» foi implementado tal como a publicação por ordem cronológica inversa. Contudo, no Expresso, a funcionalidade de comentar está restrita aos utilizadores registados (registo gratuito). Porém, não existe uma política específica para os comentários. Fiquei curioso com a atribuição de pontos que é dada aos comentários, embora confesse que não perceba se é uma atribuição que visa classificar os melhores comentários ou simplesmente compensar os melhores comentadores (os que tiverem mais pontos). Por fim, não vejo qualquer tentativa de moderação dos comentários no Expresso, tendo identificado alguns bem comerciais.

No Correio da Manhã, os comentários são sujeitos a validação (será humana ou automatizada?) e é pedida a identificação voluntária do comentador. Ordenados do mais recente para o mais antigo. Curiosidade. Na lista de artigos mais comentados, detecto alguns com mais de 30 comentários, mas no artigo em si, só aparecem os últimos 8.

No Diário Económico, os comentários só são publicados após aprovação (uma vez mais, será humana ou automatizada?). A identificação também é voluntária e não validada. Não há política de comentários, tal como no Correio da Manhã.

No Jornal de Negócios, a publicação dos comentários só é possível a utilizadores registados, embora uma vez mais, a sua identificação seja voluntária e não validada. Os comentários só são visíveis um por um, não sendo fácil perceber quais são os mais antigos ou os mais recentes. E uma vez mais, não se encontra uma política de comentários.

To comment or not to comment

Dado que os comentadores não estarão propriamente a interagir com os autores originais dos artigos (será que algum dos órgãos de comunicação social tem uma política de interacção para os seus jornalistas?), estes espaços não são mais do que meros fóruns de opinião. Em última análise, servirão para alguns (poucos) trocarem ideias, promoverem ideologias e trocarem fortes opiniões.

E aos leitores, que papel lhes cabe?

Ao comum dos leitores (os que só querem ler), para que servem os comentários? Servirão para completar o artigo em si? Servirão para identificar tendências de opinião?

A funcionalidade de comentar pode ser muito mais do que um simples formulário a ser submetido.

Há várias possibilidades em aberto, mas cada uma delas obriga a reflectir sobre aquilo que se pretende para o meio em si. Tecnicamente, todas estas possibilidades existem e já foram implementadas algures.

Filtros sociais – a possibilidade de os leitores classificarem os comentários e de verem apenas aqueles que correspondem a um determinado nível de classificação. Uma funcionalidade extremamente importante e relevante para filtrar o trigo do joio.

Identificação e respectiva validação – não é uma funcionalidade linear, mas a possibilidade de eu criar um registo meu ajuda-me não só a assinar de forma idêntica todos os meus comentários como a serem facilmente identificáveis pelos restantes leitores.

Ordenação – os comentários devem estar publicados por ordem cronológica inversa, permitindo ao leitor seguir os comentários à medida que forem publicados. E porque não dar a opção ao leitor de escolher se quer ler 5, 10, 20 ou 50 comentários de uma só vez.

Moderação – seja através de filtros sociais ou através da tradicional moderação humana, o facto é que esta tem de existir. E na minha opinião, ela tem de ser pré-publicação. A qualidade dos comentários deve estar ao nível da qualidade dos artigos que os comentários acompanham. Enquanto leitor e utilizador, sempre que abro um artigo num site (e respectivos comentários), pretendo qualidade. Mas quando chegamos aos comentários, raramente isto acontece.

Políticas – transparência, transparência, transparência. Definir as regras antes de o jogo começar. A existência de uma política de para a utilização da funcionalidade de comentar ajuda a estabelecer os parâmetros em que o comentador pode actuar e ajuda a nivelar as expectativas dos leitores.

Jornalistas – E eis a questão mais pertinente. Devem os autores dos artigos utilizador a funcionalidade do comentário para interagir com os seus leitores. Eu defendo o sim, embora aqui entremos numa discussão muito interessante sobre o papel dos jornalistas e do que pretendem os media tradicionais. (Podemos sempre prosseguir esta discussão nos comentários em baixo)

Conclusão

Os comentários nos sites dos media tradicionais são uma realidade incontornável. Porém, a falta de uma visão clara e de objectivos concretos para este novo paradigma acabam por não gerar uma interacção mais profunda com o seu principal stakeholder, os seus leitores.

Interacção, que a longo prazo gera confiança e assiduidade.

Mas sinto que nos próximos meses começaremos a presenciar uma nova abordagem destes meios com as suas audiências online, potenciando a interacção entre ambas as partes.

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4 respostas até ao momento;

  • 1 Carlos José Teixeira // Ago 28, 2008 at 18:18

    Bom… a ironia disto tudo é que ando a comentar o teu artigo no blogue do Granado. Mas eu volto. O assunto é interessante e propões questões que obrigam a alguma reflexão. Aqui ou no estaminé, há-de surgir alguma coisa.

    Entretanto, devo dizer-te que, aparte as técnicas e opções que se possam utilizar, existe algo acerca do acto de comentar em si que me parece de vital importância, quer para a motivação para o fazer, quer para a sua aprovação, moderação, interacção, etc.: O COMENTÁRIO FAZ PARTE DE UMA CONVERSA.

    Abraço,
    CJT

  • 2 Miguel Albano // Ago 28, 2008 at 18:34

    Viva Carlos,

    o Comentário deverá fazer parte de uma conversa. Infelizmente, a nossa tradição é de usar os comentários de forma meramente opinativa e unidireccional.

    Não estamos habituados a ver nos comentários como um «follow through» de um texto em termos de interacção e no caso dos media tradicionais, não estamos nada à espera de vermos o nosso comentário respondido pelo autor do artigo original.

    Se conseguirmos mudar este estado de espírito, então sim, poderemos entender os comentários enquanto parte de uma conversa.

    Mas é preciso ter cuidado. Os comentários não se devem transformar em fóruns de discussão. Devem respeitar linhas editoriais e lógicas próprias, exactamente para acrescentar valor ao artigo original, que é o que me interessa a mim enquanto leitor.

  • 3 Media | Jornalismo e Internet | : fractura.net! // Set 17, 2008 at 11:49

    [...] a ser discutido por cá e cuja discussão pode ser seguida no Ponto Media de António Granado e no (It’s) Not About You da Lift, pela mão de Miguel Albano. Enquanto no primeiro se discute o que se fazer e como se fazer [...]

  • 4 Ricardo Jorge Tomé // Set 24, 2008 at 23:25

    recomendo igualmente uma visita ao site RTP; de momento, a área de Desporto (http://desporto.rtp.pt) bem como toos os blogs possuem comentário colocado de forma livre, aprovado à priori e sem necessidade de registo.

    estamos, obviamente, também a avaliar e testar algumas soluções que permitam forte interacção sem macerar o conteúdo informativo e igualmente sem desvalorizar o espaço de partilha.

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