(It’s) Not About You

IV Encontro de Blogues

17 de Novembro de 2008 por Sílvia Dias

Sexta-feira (14 de Novembro) foi dia de IV Encontro de Blogues, na Universidade Católica. Dia longo, por sinal, com painéis que se arrastaram até ao fim do dia, mas, regra geral, valeu a pena. Um tema transversal a todos os painéis foi, como se estava mesmo a ver, o fim da blogosfera, anunciado pela Economist e defendido no encontro por Paulo Querido (podem ver, ou rever, a apresentação na edição online do Expresso). José Luis Orihuela, Professor da Universidade de Navarra, a quem coube a responsabilidade de abrir o encontro, foi o primeiro a colocar em causa esta ideia, propondo que num possível V Encontro se discuta porque é que a blogosfera não morreu em 2008. De resto, também Maria João Nogueira coloca de parte a ideia de fim, que nem Paulo Querido defende de forma literal. Há, claro, uma mutação normal. Esperar que a blogosfera se mantivesse idêntica desde 2004 seria utópico, como era utópica a ideia que os early users tinham da dita quando esta começou a desenvolver-se. Foi a ideia romântica – como muito se disse no encontro – que desapareceu, mas não me parece que os blogues sejam substituídos pelo Twitter, Facebook, MySpace, Flickr e outros que tais. Há espaço para todos e há sobretudo uma necessidade de complementaridade. O que terminou foi a ideia de que um blogue serve para tudo.

Portanto, enquanto por um lado se discute o final da blogosfera como se conheceu, nós por aqui continuamos a mostrar aos clientes como é pertinente criarem um blogue. No norte do país também Elisabete Barbosa, da LK Comunicação, o faz, embora confesse que ainda sem grande sucesso. No encontro falou-nos sobre a importância de um blogue na construção da reputação de uma empresa e trouxe-nos dados de um pequeno estudo que realizou durante o mês de Outubro, demonstrando que os blogues de agências de comunicação e marketing nacionais surgiram principalmente durante o corrente ano e se dedicam essencialmente à análise do mercado e a falar da concorrência, muitíssimo mais do que dos clientes. Surpreendidos?

Pelo IV Encontro de Blogues passaram ainda testemunhos de estratégias muito interessantes, como o blogue da Booktailors e os blogues da RTP. Fiquei, aliás, surpreendida com a estratégia da RTP, apresentada por Ricardo Tomé, no que diz respeito à comunicação digital e à promoção da interactividade com o público, porque não tinha consciência da verdadeira dimensão do projecto. Podem ver mais sobre o que foi apresentado aqui. Agradou-me também a apresentação de Lauro António, a ler no seu blogue, e as ideias lançadas por Dora Santos Silva sobre os blogues culturais e o contributo que podem dar ao jornalismo nesta área. Faltou um discurso na primeira pessoa sobre esta temática, que esperava ouvir através de Nuno Galopim e João Lopes, mas que infelizmente não estiveram presentes.

O que acabou por me parecer mais estranho, principalmente por não ter percebido as fontes para tais afirmações, foi a apresentação de Carla Cerqueira e Luísa Teresa Ribeiro – “Os bloggers têm sexo?” – onde a certa altura se afirma que os blogues escritos por homens são mais populares do que os escritos por mulheres, por uma mera questão de género. Maria João Nogueira debateu esta ideia, referindo que os dois blogues mais vistos da plataforma do Sapo são escritos por mulheres e eu, que numa primeira visita nunca reparo sequer no nome do autor, dei por mim a pensar nisto e a concordar com Ricardo Tomé quando este defendeu que o que importa mais é a temática do blogue.
 
Para terminar, um pequeno apontamento para o futuro da comunicação digital: um estudo efectuado por Mariana Pinto e Sara Bica a 436 adolescentes dos concelhos de Oeiras e Caldas da Rainha, revelou que 86% tem Internet em casa, 98% tem computador (cerca de 70% tem computador portátil) e que 94% conhecem blogues. Faltou saber que uso fazem das redes sociais, mas temos aqui (ainda mais) sinais de que as empresas não podem continuar de costas voltadas para o mundo digital. 

No Indústrias Culturais poderão ver excertos das apresentações.

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4 respostas até ao momento;

  • 1 Luisa Teresa Ribeiro // Nov 19, 2008 at 12:30

    Cara Sílvia Dias,

    Lamentamos que tenha saído do IV Encontro de Blogues com dúvidas em relação à nossa apresentação, uma vez que houve um período para perguntas e nós permanecemos até ao final do evento.

    Tal como o nome da comunicação indica, o que apresentámos no Encontro de Blogues foi um “contributo para o mapeamento da participação feminina na blogosfera”, o que significa uma abordagem sobretudo teórica (”estado da arte”) desta problemática.

    Uma vez que esta é uma matéria insuficientemente estudada, quisemos fazer um enquadramento da questão, chamando a atenção para aspectos como a representação que os media têm feito das mulheres (uma área que referimos de forma sucinta, mas sobre a qual há um amplo leque de pesquisas, que lhe podemos remeter, se estiver interessada), o papel das novas tecnologias, a identidade no ciberespaço e alguns dos indicadores da participação das mulheres neste universo.

    Depois desta primeira abordagem – um estudo com carácter exploratório, que tem uma vertente empírica, que será apresentada no I Congresso de Ciberjornalismo, no Porto – temos algumas questões que pretendemos continuar a trabalhar, entre as quais está a visibilidade dos blogues femininos:

    – Será correcto falar de blogues femininos e masculinos? Porque é que há quem esconda a sua “verdadeira identidade” sob a capa de nicknames? O que é que motiva a participação?

    – Será que as mulheres estão afastadas da blogosfera ou há blogues assinados por homens que conseguem maior destaque, mesmo nos meios de comunicação tradicionais, criando a ideia de que elas são menos activas no ciberespaço?

    – Será que os blogues de mulheres se concentram em determinadas áreas tradicionalmente conotadas com a esfera feminina? Há espaços dedicados a outras temáticas que não são (re)conhecidos?

    – Será que a blogosfera está a funcionar como um mecanismo de reprodução dos estereótipos que foram sedimentados durante séculos? Ou poderemos encarar os blogues como ferramentas que estão a promover a mudança social?

    Uma das hipóteses de trabalho é que questões como a visibilidade, popularidade ou poder de influência possam estar associadas ao sexo declarado do blogger. «According to the Pew Internet and American Life Project, among Internet users, 14 percent of men and 11 percent of women blog. A study conducted by BlogHer and Compass Partners last year found that 36 million women participate in the blogosphere each week, and 15 million of them have their own blogs. Yet, when Techcult, a technology Web site, recently listed its top 100 Web celebrities, only 11 of them were women. Last year, Forbes.com ran a similar list, naming four women on its list of 25», este é apenas um exemplo (http://www.nytimes.com/2008/07/27/fashion/27blogher.html?_r=2)

    A literatura diz-nos que, por exemplo, na comunicação social tradicional, “os temas que dizem respeito às mulheres têm uma prioridade baixa, quando são incluídos” (Gallagher, 2004: 87) e que as mulheres são “simbolicamente aniquiladas” (Tuchman, 2004). Basta olhar para outros sectores da sociedade para observar situações de sexismo flagrante ou subtil. Será que a blogosfera é um mundo à parte, imune a este fenómeno? É algo que pretendemos continuar a aprofundar…

    Aconselhamos as seguintes leituras:

    Amâncio, Lígia & Oliveira, João (2006). ‘Men as individuals, women as sexed category: Implications of symbolic asymmetry for feminist practice and feminist psychology’. Feminism & Psychology, Vol. 16, No. 1, pp. 35-43.

    Bourdieu, Pierre (1999). A Dominação Masculina. Oeiras: Celta.

    Calvo, Santiago & Fernández, Ana Sofia (2008). La mujer y el inmigrante en Internet, Martins. Moisés & Pinto, Manuel (org.). Actas do 5º Congresso da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação ‘Comunicação e Cidadania’, Universidade do Minho, Braga. [Em linha]. URL: http://lasics.uminho.pt/ojs/index.php/5sopcom/article/viewFile/155/151.

    Gallagher, Margaret (1981). Unequal opportunities: the case of women and the media. Paris: UNESCO.

    Gallagher, Margaret (2004). ‘O Imperialismo de batom e a nova ordem mundial: As mulheres e os media no final do século XX’, in Silveirinha, Maria joão (eds.) (2004) As Mulheres e os Media. Lisboa: Horizonte, pp. 64-96.

    Kaye, Barbara (2007). Blog use motivations: an exploratory study, in Tremayne, Mark (ed.) (2007). Blogging, citizenship, and the future of media. New York and London: Routledge.

    Lever, Eva (2008). Las mujeres e los blogs. Sala de Prensa. [Em linha] URL: http://www.saladeprensa.org/.

    Perdersen, Sara & Macfee, Caroline (2007). ‘Gender differences in British blogging’. Journal of Computer-Mediated Comunication, pp. 1472-1492.

    Silverinha, Maria João (2004). ‘Representadas e representantes: as mulheres e os media’, Revista Media & Jornalismo, Coimbra: Edições Minerva, 5: 9-30.

    Tuchman, Gaye (2004). ‘O aniquilamento simbólico das mulheres pelos meios de comunicação de massas,’ in Silveirinha, Maria João (eds.) (2004) As Mulheres e os Media. Lisboa: Horizonte, pp. 139-153.

    Estamos ao seu dispor para esclarecimentos adicionais.

  • 2 Sílvia Dias // Nov 19, 2008 at 13:55

    Caras Luísa e Carla,

    Recordo que a questão foi levantada logo no arranque do debate e que gerou ainda alguma discussão, no entanto os argumentos por vós apresentados não conseguiram responder à minha dúvida. Não coloco em causa em ponto algum a relevância e veracidade dos dados que apresentaram sobre os meios de comunicação tradicionais, têm por base estudos e valem aquilo que valem. Mas a afirmação que referi, sobre a popularidade dos blogues com base no sexo dos autores, continua a não me convencer e como não há estudo nenhum, rigoroso e com validade estatística – de que tenha conhecimento – que o comprove, continuo a acreditar que quem consome blogues procura temas que lhe interessam, que importa menos se quem escreve é uma mulher ou um homem. Claro que esta é a minha opinião, com base no senso comum, no meu consumo diário de blogues, no meu convívio diário com utilizadores de blogues.

    Alegra-me muito que se dediquem à temática e agradecia se me pudessem informar sobre as principais conclusões que retirarem do estudo, quando este estiver terminado.

  • 3 Luisa Teresa Ribeiro // Nov 19, 2008 at 19:24

    Cara Sílvia Dias,

    Recomendamos, por exemplo, este artigo científico que está online:

    Perdersen, Sara & Macfee, Caroline (2007). ‘Gender differences in British blogging’. Journal of Computer-Mediated Comunication, pp. 1472-1492. http://jcmc.indiana.edu/vol12/issue4/pedersen.html

    As novidades relativas a publicações relacionadas com este assunto, nomeadamente a comunicação do I Congresso de Ciberjornalismo, poderão ser acompanhadas em http://estudoblogosfera.blogspot.com/.

  • 4 Sílvia Dias // Nov 20, 2008 at 11:36

    Fico então a aguardar os resultados do estudo.

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